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A Psicologia Transpessoal: uma jornada que explora os limites da consciência

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Em um mundo onde a busca pelo autoconhecimento e pela compreensão mais profunda do ser humano é necessária, a Psicologia Transpessoal emerge como uma abordagem que vai além das fronteiras tradicionais da mente e da psique.

A palavra “transpessoal” significa literalmente: além (ou através) do pessoal. Esse termo foi utilizado pela primeira vez no contexto da psicologia por Carl Gustav Jung, com a palavra überperson (do alemão, supra pessoa) e uberpersönlich (do alemão, supra pessoal).

A Dimensão Espiritual na Psicologia Transpessoal

Nesse contexto, a palavra transpessoal se relaciona a experiências, processos e eventos nos quais nosso sentido limitante do “Eu” é transcendido e nos leva a uma conexão com uma realidade mais ampla e significativa. Isso pode implicar, por exemplo, que desenvolvamos um senso maior de responsabilidade com outras pessoas, com os animais, com a humanidade em geral, com a vida, com o planeta ou com a natureza.

Embora muitas dessas experiências sejam frequentemente rotuladas como espirituais, é importante ressaltar que elas não estão necessariamente ligadas a uma tradição religiosa específica. Elas podem ser profundamente transformadoras, mas também profundamente desafiadoras, já que confrontam as estruturas egóicas que moldam nossa compreensão do mundo e de nós mesmos. Em minha prática como terapeuta transpessoal, percebo como é essencial a construção de um espaço acolhedor e seguro para aqueles que estão em busca de uma jornada de autoconhecimento e expansão de consciência.

É neste ponto que a Psicologia Transpessoal se torna uma ferramenta poderosa para aqueles que estão experienciando ou estão buscando essa expansão de consciência e uma compreensão mais profunda do universo que nos cerca. Nessa abordagem não são considerados apenas os eventos, processos e experiências transpessoais, mas buscamos resgatar e fortalecer a dimensão saudável do ser para, a partir dela, consolidar uma base que dê suporte a essa expansão de consciência e aos desafios de integrá-la em nossa vida cotidiana.

Fundamentos e História da Psicologia Transpessoal

Para compreendermos as bases da Psicologia Transpessoal, é essencial conhecer um pouco de sua história. Embora figuras como William James, Carl G. Jung e Roberto Assagioli possam ser consideradas precursoras dessa abordagem, sua demarcação histórica se dá a partir de 1968, quando Abrahan H. Maslow, então presidente da American Psychological Association e do Conselho do Departamento de Psicologia de Brandeis University, abordou a necessidade de uma psicologia voltada a necessidades e valores mais elevados no prefácio da Segunda edição de seu livro “Toward a Psychology of Being”. 

No ano seguinte foi criado o Journal of Transpersonal Psychology sob a direção de Antony Sutich. E em 1972 a Associação de Psicologia Transpessoal foi fundada por Maslow em conjunto com Antony Sutich, Carl Rogers, Charlote Buhler, James Fadiman, Stanislav Grof e Victor Frankl.

Essa foi uma época marcada por grandes mudanças sociais, por uma apreciação dos ensinamentos orientais, especialmente o budismo e o hinduísmo, e pelo uso de drogas psicodélicas em pesquisas na psiquiatria. Os psicodélicos também eram vistos como facilitadores de estados expandidos de consciência. Stanislav Grof foi pioneiro no uso clínico do LSD no tratamento do alcoolismo e toxicodependência. Com a proibição do uso do LSD, Grof desenvolveu, em conjunto com sua esposa Cristina Grof, a Respiração Holotrópica, uma técnica que envolve longas sessões de respiração alterada combinadas com música evocativa e trabalho corporal.

No Brasil, a partir dos anos 80, Pierre Weil e Léo Mattos foram pioneiros na introdução da teoria transpessoal no campo acadêmico. Em 2006, Vera Saldanha por meio de sua tese de doutorado na Unicamp apresentou a Abordagem Integrativa Transpessoal – AIT que sistematiza os principais conceitos da Psicologia Transpessoal, ampliando-os e apresentando-os de forma estrutural e dinâmica, com a finalidade de facilitar a aplicação deste referencial não apenas na clínica, mas também na educação, saúde e nas instituições.

Psicologia Transpessoal e a Transdisciplinaridade

Mas vale ressaltar que, embora a Psicologia Transpessoal em sua abordagem acadêmica tenha se desenvolvido dentro do domínio da psicologia científica, ela reconhece o valor de outras disciplinas na contribuição para uma melhor compreensão do transpessoal. 

Em um momento em que a saúde mental vem chamando a atenção pelos índices crescentes de diagnósticos de problemas e transtornos mentais, abordagens que consideram o ser em sua totalidade, em suas dimensões bio-psico-socio-espiritual podem contribuir de forma mais efetiva para o aumento do bem-estar. Nesse contexto, vale ressaltar que as pesquisas e estudos científicos envolvendo o uso de psicodélicos para o tratamento assistido em psicopatologias vem crescendo motivado pela baixa eficácia e altos efeitos colaterais dos psicofármacos. Nesse cenário a Psicologia Transpessoal pode ser uma resposta.

Conclusão

Em resumo, a Psicologia Transpessoal é uma abordagem conectada com os desafios do nosso atual contexto que tem bases teóricas e conceituais sólidas tanto no mundo quanto no Brasil. Uma abordagem que vai além dos limites convencionais da compreensão da psique, explorando experiências que transcendem o eu individual e conduzem a uma conexão mais ampla com a realidade. E que busca resgatar e fortalecer a dimensão saudável do ser humano para suportar não apenas o processo de expansão de consciência, mas também para lidar com os desafios da vida cotidiana.

Sobre a Autora

Maria Rosa Trombetta é terapeuta de pessoas e organizações. Mestre e bacharel na área de negócios pela FEA-USP-SP, especialista em Psicologia Transpessoal pela ALUBRAT e IVS. Tem cursos de extensão em Logoterapia, Constelações Sistêmicas, Terapias  Integrativas, Psicologia Junguiana e Trabalho com Sonhos e formações em terapia cognitivo-comportamental e neurociência. Atua há mais de 20 anos com desenvolvimento humano, tanto em programas de desenvolvimento profissional quanto em processos terapêuticos individuais e em grupo.

Referências:

DANIELS, Michael. Shadow, self, spirit: essays in transpessoal psychology. Digital version convertes and published. Luton: Andrews UK Limites, 2016.

LELOUP, Jean-Yves. Caminhos da realização: dos medos do eu ao mergulho no Ser. Tradução: Célia Stuart Quintas, Lise Mary Alves de Lima, Reginal Fittipaldi. 20ª ed. Petrópolis: Vozes, 2013.

MASLOW, Abraham Harold. La amplitude potencial de la naturaliza humana. Tradução: Irene Livas González. 2ª ed. México: Trilhas, 1990.

SALDANHA, Vera. Psicologia transpessoal: abordagem integrativa um conhecimento emergente em psicologia da consciência. Ijuí: Unijui, 2008.

SALDANHA, V.; ACCIARI, A. S. Abordagem integrativa transpessoal/; psicologia e transdisciplinaridade. São Paulo: Editora Inserir, 2019.